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O nome Bunheiro virá
provavelmente de bunho, uma planta própria de terrenos húmidos e que é
abundante na região.
A formação da freguesia
deu-se da mesma forma que o resto da terra Marinhoa, por aluvião, com
terras conquistadas ao mar, em conjunto com a formação da ria, e onde a
acumulação de sedimentos trazidos pelos rios até à sua foz, com
destaque para o Vouga ou o Douro, por acção das correntes marítimas,
tiveram grande influência. Segundo um lento mas progressivo assoreamento
formou-se assim toda a região da Marinha.
D. Afonso III doou as
villas de Avanca e Antuã ao Mosteiro de Arouca, formando com elas o couto
de Antuã, em 1257. Nesta altura (documento da doação do dito couto)
não se referem terras para além de Fontela (actual limite de Avanca, em
relação a Pardilhó), pelo que ainda não havia notícias de Pardilhó
ou do Bunheiro, embora conheçamos dados mais antigos que mostram já
existir esta zona. Aqui cobrou o dito Mosteiro impostos sob a forma de
géneros relativos a parte da produção agrícola (dízimos e oitavos),
durante seis séculos. Para guardar estes tributos havia dois celeiros na
freguesia, um próximo à capela de S. Sivestre, no caminho da Renda, e
outro no lugar do Celeiro, no local onde se veio a instalar um posto de
recolha de leite. Vêm desses dois celeiros de “armazenamento de
impostos” estes topónimos actuais de Renda e Celeiro. Esta freguesia
sempre teve vocação agrícola.
O Bunheiro desmembrou-se
da paróquia de Avanca, à qual pertencia, em 1601, ficando
pertencendo-lhe então o lugar de Pardilhó, onde se iniciou também a
construção da primeira igreja paroquial em 1638. Ao tornar-se freguesia
autónoma o Bunheiro não deixou, porém, de pertencer ao concelho de
Antuã/Estarreja.
Com o advento do
liberalismo, no século XVIII, ocorreram diversas reformas
administrativas. Em 1834 o convento de Arouca perdeu todos os seus
direitos no Couto de Antuã, devido às mudanças políticas operadas pelo
regime liberal, embora ainda tentasse resistir, sem sucesso, durante
vários anos. Do século XIX ouvimos
ainda ecos do conflito entre liberais e miguelistas e da passagem de
soldados da segunda invasão francesa a Portugal (comandada por Soult).
Com a fundação do concelho da Murtosa, em 1926, o Bunheiro passou a
pertencer-lhe.
Ao longo da sua história
o Bunheiro revelou-se uma freguesia dispersa por vários lugares, sendo de
salientar dois núcleos populacionais mais relevantes, Bunheiro e Sedouros.
Desde a sua formação a freguesia foi sempre das mais populosas da
região, embora hoje essa tendência se tenha invertido.
Esta freguesia foi desde
sempre bastante ligada à Igreja. Possui várias capelas e daqui saíram
numerosos padres e destacados membros hierarquia da Igreja portuguesa. Os
edifícios religiosos mais importantes são bastante antigos. Com efeito,
já no início do século XVII o Bunheiro tinha os seguintes edifícios:
igreja paroquial, capela de S. Pedro (Pardilhó), capela de S. Silvestre e
capela de S. Simão. Todos sofreram alterações profundas, salvo a capela
de S. Simão. A também antiga capela de S. Gonçalo teve grandes reformas
na segunda metade do século XIX e chegou a substituir provisoriamente a
igreja, que data de meados do século XVIII. A construção da igreja
iniciou-se, com efeito, em 1741, e as obras estenderam-se durante quase um
século. É no entanto bastante provável que fosse aproveitada uma grande
parte do edifício anterior, que na altura ameaçava ruína. A obra foi
adjudicada por 5.595$00, uma fortuna para a época.
CAPELA
DE S. SIMÃO
A capela de S. Simão é
a mais antiga das redondezas. Quando foi construída ficou uma pedra por
cima da única porta de entrada, que ainda existe, com a seguinte
inscrição: «Esta capela a fez o Padre Simão Fernandes Ruela na era de
1600». Tanto a capela de S. Simão como a formação do Bunheiro como
freguesia autónoma são, portanto, do período do domínio filipino.
A pequena e simples
capela não sobressai pela arte, em que é até pobre, mas pela sua forma,
cilíndrica, lembrando o aspecto de uma mesquita árabe, sem ter, apesar
disso, qualquer relação com esse tipo de edifícios. Este aspecto
valeu-lhe a alcunha de “capela do forno”.
A ela estavam anexas, por
vínculo, algumas propriedades, deixadas pelo fundador para manter as
despesas inerentes à conservação do edifício e missas por sua alma.
Trata-se de um sistema que se encontrava com alguma vulgaridade noutros
tempos. O P.e Simão Fernandes Ruela, proprietário abastado da capela,
fez o seu testamento em 1632 - testamento esse que nos dá algumas
informações importantes para a história das vizinhanças - e ali foi
sepultado após falecer, não muito mais tarde. A capela não foi por isso
dividida por herdeiros mas, ao longo dos anos, administrada por clérigos
que usufruíam dos seus bens, segundo o desejo do fundador. O regime
vincular foi abolido pelas reformas liberais, embora com longa
resistência nesta região, no século XIX, e a partir daí os bens da
capela de S. Simão começaram a dispersar-se por diversos herdeiros e o
edifício atravessou uma época de degradação, hoje ultrapassada.
Bibliografia principal
José Tavares Afonso e Cunha, Notas Marinhoas, Vol. 1, 1965
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