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Tradições Moribundas
OS MOLEIROS

O Padre Ruela Pombo – Bunheirense ilustre, notável polígrafo e investigador histórico de grandes méritos – deixou escrito  que os moleiros não entram no céu; talvez porque, na opinião popular, tinham os caminhos para lá obstruídos com montanhas das maquias que largamente “roubavam” dos alqueires da fornada.

Além desta injustiça caluniosa, no seu vocabulário e conceito, moleiro era sinónimo de molengão (moleirão, pelo seu andar lento e brandura no trato social).

Quando crianças e voltávamos da escola, ou de qualquer brincadeira, cheios da poeira do caminho e com a roupa suja e desalinhada, nossas mães diziam que parecíamos uns moleiros. Coitados.

Vinham de cima de Avanca, de Loureiro, de Ul, das bandas da Minhoteira, com o carro ou a mula carregada ao lado, de colete desato à brisa da tarde e chapéu coberto do pó da farinha. Calcorreavam léguas por casas de fregueses, levando ou buscando a “fornada”, e deixavam pelos caminhos longos da tradição episódios que não esqueceram na memória do povo. Posto em casa o saco da farinha, as crianças inocentes, que ouviam as mães dizer que os meninos eram trazidos pelos moleiros nesse saco, em primeiro lugar, silenciosamente e cheiros de curiosidade, vinham apalpar a farinha, esperando encontrar algum vulto ou ouvir algum gemido que denunciasse a chegada de bebé! Santa inocência. Mais tarde passaram a vir no bico da cegonha, depois de Paris… E nós acreditávamos… Agora!… Já nascem com os olhos abertos e riem-se destas aldrabices do tempo.

Um episódio curioso, e ainda hoje lembrado, vai prefaciar esta série: Morava em Touregas um cliente que o povo, não sei porquê, conhecia por João Roi berros, de seu nome João Ruela, cuja linguagem era sempre rimada, em verso. Um dia vieram dizer-lhe que o seu cão estava morto, pelo que logo pousou a enxada no ombro, a caminho dos Passadouros, então de areia. Fiz a escola ali nas Touregas, numa casa que já não existe, frequentada por muitos de Pardilhó. Como me lembro deles! Na força das aulas íamos todos pela vizinhança, descobrir mundo, e conhecíamos pelo nome, pela cor e pelo ladrar os cães da área. Eram tratados como colegas amigos e não faziam mal. O cão do tio Roi berros era grande, preto, capaz de pôr em sentido um polícia. De volta à vaca fria, ouvida a notícia, tio João pôs então a enxada ao ombro – lavrador que se prezava não saia de casa sem aquele distintivo da classe – e fez-se a caminho dos Passadouros. Estendido na valeta, um pouco adiante da casa do famoso Custódio Prato – que o Rancho Folclórico dos Camponeses da Beira Ria transformaram  no Museu Etnográfico Custódio Prato –, encontrou o Gigante morto, estendido na valeta. Pousa a enxada e debruçou-se meditabundo sobre o cabo e disse: «Ah! Gigante, morreste que foi um instante. A estas horas foi o Catrino, porque lhe fizeste algum desatino.» E abrindo uma cova ali o enterrou, sem impedir que uma lagrima lhe rolasse pela face. A casa do Manel Catrino ainda existe e nela trabalha uma cabeleireira de senhoras.

Ao chegar a casa encontrou o moleiro e deu-se um segundo episódio:

Era então costume no Bunheiro aproveitar a matadela do Porco para derreter os rojões e cozer o pão, em dias diferentes.

Tio João convidou o moleiro para entrar na cozinha e petiscar: «A mulher anda aí a derreter um rojão. Tens pão quente e uma garrafa de quartilho e quarteirão.» O moleiro desbarretou e sentou-se. A patroa pôs-lhe à frente um prato bem composto de rojões fumegantes e cheirosos, uma lasca de broa e a garrafa de verdasco americano.

O moleiro pôs as queixadas a moer e só parou quando os pratos e a garrafa ficaram limpos, com grande espanto do velho cliente. Levantou-se o moleiro ainda a lamber a beiça e ia para sair, quando o tio João lhe saiu à frente e em tom severo o ameaçou com o despedimento: «Já que foste descortês, comeste por uma vez. Para a outra vez nem brinças, nem milho, nem pão, nem rojão, nem vinho que se beba.» E trocou de moleiro.

Figura de bem que praticamente desapareceu da paisagem marinhoa, o moleiro era exemplo de simplicidade, bonomia e trabalho. Não resisto a transcrever o conhecido poema de Junqueiro, musicado e cantado sobretudo por Maria de Lurdes Resende nos bons velhos tempos.

Eis o poema, lede-o com atenção:

 

A MOLEIRINHA

(Os Simples)

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toc, Toc, Toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
P’ra vestir os netos, p’ra acender o lume...  

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar á igreja,
Baptizar-lhe a alma p’ra a fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai n’uma frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!...

Ocasiões houve em que se deterioraram as até aí boas relações de moleiros com os clientes, tudo por causa da mania que negava excessos. Vou resumir a contenda dos factos que passaram.

As boas relações entre moleiros e clientes tiveram uma crise grave. Os clientes achavam as maquias excessivas, agravadas com o tributo anual de 1 alqueire de milho pelo São Miguel.

Aos moleiros exigiam que cada um pusesse energia eléctrica em sua casa e montasse um moinho para moer os seus cereais. Electricidade era coisa que começava a estender a sua rede e os meios para a instalar pela freguesia. O que pretendiam dos moleiros poucos dispunham. Estes, por seu lado, saudosos das “graças” que recebiam durante o ano – batatas, feijões, cebolas e outros produtos da terra que não possuiam –, achavam-se indecisos sobre a questão. E se os clientes fizessem a montagem de um moinho e dispensassem os seus serviços?! Então, depois... adeus batatas, adeus feijões, adeus cebolas, adeus rojões e adeus consoadas. Foram, por isso,  ao tabelião reclamar, por escritura, que deixavam de moer para os clientes. Estes responderam com outra escritura que nunca mais dariam cereais para moer e um alqueire de milho pelo S. Miguel, ameaçando com multa de 500 e mil escudos os que o fizessem.

Ainda recordo os principais moleiros desses tempos: O Trinta Libras, um financeiro de primeira, o circunspecto António do Forno, o palrador António de Santo Amaro, o hábil Francisco, os meigos paciências, o Brilhante e outros e outras. Por essa e por outras razões, pelo progresso dos modos e meios da vida, os moleiros sumiram da nossa paisagem. Cada um arranja por seus próprios meios de moer. Tenho saudades das infindas memórias desses tempos e de tudo o que vem preso a elas pela vida fora. Tudo mudou e continuará a mudar. Mas, as consoadas não voltam a ter a presença simpática dos moleiros, e não aparecerão pelo Entrudo.

Estas memórias são de uma tradição precoce extinta, tanto no Bunheiro como na freguesia irmã de Pardilhó.

Setembro de 1998
Jaime Vilar
Adaptado

 


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